Deus, Terra e Humanidade

"O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a probabilidade de sobrevivência espiritual da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se uniram num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas religiões" (Olavo de Carvalho, "O Jardim das Aflições" p. 302)

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Terça-feira, Junho 29, 2010

A era da desinformação

A chamada era da informação, celebrada com o advento da internet e da ênfase em atividades que pressupõem o uso do intelecto, promete mundos e fundos de conhecimento para a humanidade inteira. O messianismo da era moderna clama por um mundo unificado, educado, "avançado" tecnologicamente (nunca gostei desse termo, como se o "atrasado" fosse ruim, não é?) e pacífico.

Mas agora eu me pergunto: onde está o mundo pacífico? O século XX, moderno por excelência, não foi também o século mais mortífero da história humana, com 262 milhões de mortes empreendidas deliberadamente por governos (http://www.hawaii.edu/powerkills/)? Mundo "avançado" é o de hoje, não é? Que apresenta a técnica como a salvação do mundo, que olha com desdém seu passado "obscurantista" e "opressor", que bate com mão de ferro sobre a Igreja Católica, a mesma instituição que criou as universidades, os hospitais, contribuiu para a clarividência com a filosofia escolástica, as artes, a arquitetura, sem falar nas invenções técnicas agrícolas, metalúrgicas e de engenharia. O passado "retrógrado" é o passado que sustenta o presente e a promessa de futuro, já que o momento "avançado" do mundo só é "avançado" porque "avançou" sobre um antigo edifício arduamente construído. (Ainda poderíamos citar constribuições ao direito e à economia que se tornaram sustentos básicos do mundo moderno.)

Na era da informação, onde a promessa messiânica de um futuro glorioso se apóia na perfeição técnica de caráter anti-espiritual, todas as informações referentes ao espírito tendem a ser negligenciadas ou vistas como "excentricidade", ou de "retrógrados", ou de malucos.

Recemente fui testemunha do relato de uma viagem feita por um dos membros do Grupo São José, cujos encontros semanais eu frequento. Independente do conteúdo dessa viagem, um dos relatos mais chocantes foi o testemunho ocular de um milagre coletivo em Medjugorje, na Croácia, seguida pela observação de uma figura humana. O testemunho relata que, numa missa sob chuva, o tempo abriu-se sobre o público presente, e o sol, iluminando a multidão, começou a dançar pelo céu. As pessoas puseram-se a correr, e meu amigo que lá estava (e que não é nenhum ingênuo incrédulo) saiu desesperado de volta para o hotel. Em seguida à dança do sol, a imagem da lua contornada por doze estrelas se fez presente, como se novamente os astros estivessem à literal mercê da Vontade Divina. E todo mundo viu. E todo mundo foi testemunha, exatamente como a multidão que, a um final de tarde, se põe a admirar o pôr-do-sol. Repito: meu amigo foi testemunha ocular de uma milagre coletivo. Qualquer coincidência com Fátima não é mera coincidência.

Agora eu me pergunto: onde estava a imprensa mundial naquele momento? Onde estavam os jornalistas tão ávidos de investigações misteriosas? Onde estava a CNN, a Rede Globo, a BBC, os grandes jornais e redes de TV? Hã? Em plena era do conhecimento, foi necessário que os meios de comunicação se tornassem complexos demais para que os grandes veículos não abafassem acontecimentos de grande envergadura com os vistos em Medjugorje. E ainda assim o resultado é trágico: a grande maioria da população mundial provavelmente têm acesso às grandes redes, mas não tanto aos pequenos contatos como a internet. Se o mundo está empenhado, em parte por ignorância (a mesma que "esqueceu" das grandes obras da Igreja), em parte por malícia demoníaca, a sufocar os sinais lançadoas pela Transcendência literalmente na cara do homem, então não há Cristo que nos salve. Afinal, é parte do plano divino a intocabilidade do livre-arbítrio humano, que se manifesta não pelas ações e pensamentos, mas pela atitude espiritual com relação a própria existência. Numa analogia, é aquilo que Viktor Frankl fala como uma atitude perante a vida: um sentimento de abertura e aceitação da vida tal qual se apresenta e que é independente à liberdade física de se fazer o que se quer.

Se o homem realmente não quiser se deixar tocar nem mesmo pelos milagres gritantes de Medjugorje (creio que só faltam as pedras berrarem nas ruas de Nova Iorque), então as coisas tenderão a se tornar mais críticas. E aí haverá choro e ranger de dentes.

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Quarta-feira, Junho 23, 2010

De incertezas à certeza

Não é a primeira vez que entro no meu blog com vontade de escrever algo, sendo que esse "algo", ou não está presente, ou está indefinido. Tentar falar de um objeto sem sua posse é mais ou menos como tentar acertar um alvo difuso, ou delimitar cientificamente aquilo que não é palpável aos métodos da tão aclamada ciência moderna. Parece que podemos chegar lá. Mas só parece.

A vida é, como dizia Ortega y Gasset, desafio, sacrifício, esforço. Não é possível ter a posse plena de algo se não trabalhomos e suamos a camisa por esse algo. Ainda mais se tratamos da compreensão do objeto, ato intelectivo necessário não apenas às banais escritas desse blog, mas à compreensão de qualquer coisa na realidade que nos rodeia. Porque, ao compreendermos o objeto, temos o desafio da síntese imaginativa, ou seja, vislumbrar mentalmente a matéria-prima daquilo que será nossa expressão retórica. Mas a retórica (para a infelicidade geral das aproximadamente 6000 línguas existentes no mundo) não pode apreender o objeto. Sabemos, por exemplo, o que é uma cadeira, mas a palavra "cadeira" não "chega lá". Sentimos-la pela intelecção, ou seja, a tomada de consciência do que é a cadeira, e o ato da intelecção transcende toda e qualquer expressão verbal.

Se a vida é desafio e sacrifíco, parece, portanto, que a intelecção é o primeiro passo para sabermos o que é desafio e sacrifício. É o primeiro contato com a realidade e a compreensão do que sou eu. Se Deus dotou o homem do ato de inteligir, é porque é através desse dom, parceiro inseparável do coração humano, que podemos compreender nossa exata medida e nossa real situação no Universo no qual estamos inseridos. Ser inteligente é ser humilde. A intelecção proporciona a exata medida da condição humana frente à infinitude divina. O coração humano é o passo último e supremo: faz da proporção a simbiose perfeita entre a criatura e seu Criador.

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Sexta-feira, Junho 11, 2010

Porque Deus está em tudo

Sem fui apaixonado pelas coisas do tempo, a meteorologia, a climatologia. Percebi que meu fascínio pelos fenômenos atmosféricos, onde os extremos são sua expressão máxima, levam-me à fronteira da contemplação da realidade.

Daí para a mística é um salto. A realidade é uma miríade de aspectos combinados e incrivelmente dispostos de pesos e medidas, ordem e transição, yin e yang, enfim, expressão de uma ordem subjacente a ela mesma. Ou seja: ela é a face de algo que já estava gravado e, portanto, é precedente à sua existência e que determina sua ordem mesma.

Muitos vão dizer que isso é a beleza da natureza, outros vão vibrar e entrar em êxtase, como se um homem idoso de setenta anos voltasse a ter quinze, alguns dirão que é Deus que está em tudo e outros vão simplesmente esquecer de seus problemas.

Não tenho qualquer contato com as obras de Santa Tereza D´Ávila nem sou versado na vida dos santos e das pessoas de alma elevada, mas tenho quase certeza que a oração não precisa necessariamente do Pai Nosso ou da Ave Maria para uma caminhada mais luminosa (o que implicaria num esforço espiritual maior; se o próprio Jesus Cristo nos ensinou o Pai Nosso, é porque este é o exercício mais simples de se chegar até Ele) . Antes de mais nada, a abertura com discernimento é tudo, mesmo no mais profundo silêncio e na contemplação. A realidade circundante é o oceano do qual fazemos parte. Se abrirmo-nos para este oceano, suas águas nos inundarão e, junto com ela, a Causa Primeira que precede a ordem existente.

É aí que a beleza do mundo invade nossa alma, porque a beleza é uma expressão intrínseca da realidade. Beleza e mundo não são separáveis; um está para o outro como o calor está para o elemento material. Ondem há o material, há calor. Não pode haver calor no "nada".

Quando me fascino com os eventos atmosféricos, não é porque esses eventos são tudo para mim, mas porque, de alguma forma, ou eles revelam aspectos da Causa Primeira, ou são aspectos pelo qual flui a Causa Primeira diretamente à minha alma. É o que muitos chamam de Deus. E minha êxtase pode ser sentida em qualquer situação existente pelo simples fato de que qualquer coisa é componente da realidade e, portanto, um aspecto seu. A realidade é a expressão da face e da moral de Deus. A repentina sensação de "como é bom" estar aqui, de captar por um instante a maravilha essencial de ver seu filho crescer, de sentir-se realizado com algo que tanto gostaria de fazer e finalmente se conseguiu, sim, Deus está nisso tudo. Porque tudo que é feito e tudo o que está aí são componentes participantes da realidade mesma e, portanto, uma porta aberta em potencial para que o dedo de Deus surja na Eternidade para mergulhar diretamente no coração humano.

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