Deus, Terra e Humanidade

"O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a probabilidade de sobrevivência espiritual da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se uniram num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas religiões" (Olavo de Carvalho, "O Jardim das Aflições" p. 302)

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Sexta-feira, Fevereiro 26, 2010

A abertura, o Visitante e a salvação

Desde que comecei a levar mais a sério a vida religiosa, por assim dizer, percebi que um universo de possibilidades abriu-se à minha frente. Aos poucos, foi como se o chacoalhamento da vida cotidiana recebesse um amortecimento geral, sendo absorvido por uma experiência interior que, no fundo e na base, é a abertura para um exterior no qual estamos inseridos.

Faço referência à imersão naquilo que chamamos de Deus. "Nele nos movemos, somos e existimos", dizia o Apóstolo Paulo na pregação na Grécia antiga, anunciando que o chamado Deus Desconhecido pelos gregos era Aquele que veio em forma de homem e que os inspirava pelos dons do Espírito Santo. A abertura para com a Transcendência, o deixar entrar na batida da porta por Jesus Cristo é, na verdade, a vazão e a resolução de tudo o mais que perpassa em nossa vida. Se a porta se abre não é apenas o Cristo que entra, mas é a tensão interior e a sensação insuportável de estar escravizado às diatribes do espaço e do tempo que vazam por essa nova abertura, e encontram no Visitante não apenas a saída, mas também a sua resolução. Se a vida é complexa e dolorasa, ela assim o é porque nos ensina algo para a retidão do espírito. O Deus bondoso e infinitamente misericordioso sabe que a cruz que carregamos é aquela que podemos carregar, e não podemos ter a petulância de exigir a Ele que nos abrande o peso sem que façamos a nossa parte, retribuindo a misericórdia com a concretização real dos planos que Ele tem para nós. Pretender ter uma vida melhor e ser uma pessoa melhor sem a contrapartida do esforço e da entrega interior não é apenas contrariar o Princípio criador e o Intelecto primeiro que origina e comanda a Existência, mas é a pretensão arrogante de ser mais bondoso do que o Deus infinitamente bom, ser melhor do que o Deus infinitamente perfeito, de usurpar Seu trono e declarar que sua bondade e misericórdia é superior à misericórdia divina. Apelar para que a cruz desça de nossos ombros sem cumprir com o que nos cabe, gritando na face de Cristo os direitos que não nos cabe, é a concretização mais profunda e satânica do pecado original; é definir, à nossa imagem e semelhança, o que é o Bem e o Mal. Esquecer os próprios pecados para daí julgar o mundo e a humanidade do alto de um pedestal é apenas um passo. A humanidade, atolada até o pescoço com pretensões de grandeza e soluções mágicas sem antes trilhar o caminho que levem às soluções na medida do real, caminha à passos largos para a angústia universal e o caos. Fechada à Transcendência e ao Deus salvador, o mundo se escraviza cada dias mais aos sofrimentos que tão desesperadamente promete riscar do mapa.

Se eu levo a vida religiosa mais à sério, não é porque quero mudar o mundo, mas porque oro e desejo ardentemente a minha salvação e a consequente iluminação do mundo. E a salvação se inicia com a abertura e o convite à Cristo para a nossa vida e a consequente superação das diatribes do Cosmo, das dores dessa vida e do distanciamento para uma vida interior, muito superior às leis que regem a força dos ventos e a intensidade da luz do sol. Porque essas coisas não importam; são apenas contingências de uma lei maior à qual estamos ligados e que permitem, à luz de sua onipotência e perfeição, que todos os defeitos e problemas de nossa vida vazem para um lugar onde sejam tratados do modo como Deus determinar.

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