Coloco a seguir a transcrição do programa
True Outspeak apresentado pelo filósofo Olavo de Carvalho nas segundas-feiras, às 20 h, horário de Brasília, através do site http://www.blogtalkradio.com/olavo .
O trecho transcristo é o programa do dia 5 de fevereiro de 2007 (disponível em http://www.blogtalkradio.com/olavo/blog/2007/02), onde Olavo discorre sobre a inversão da lógica temporal na mentalidade revolucionária. Partindo da pergunta de um ouvinte, o filósofo argumenta que a mentalidade revolucionária derruba o conceito original de eternidade, subtraindo-a aos tempos históricos. Resumidamente, a eternidade transforma-se num momento do tempo futuro que deve ser alcançado mediante a ação humana. Na suposta chegada desse monento, o tempo se cristalizaria num momento perfeito, realizando o Juízo Final neste mundo e instaurando o "Paraíso na Terra".
A mentalidade revolucionária advoga a realização divina no aqui e agora segundo sua imagem e semelhança, fazendo da inversão da lógica temporal a inversão de tudo o mais. Olavo discorre sobre as consequências dessa distorção temporal e dá exemplos do que essa traição pode acarretar.
A transcrição preservou a informalidade do monólogo exigindo apenas complementações verbais muito pontuais.
Boa leitura.
Início: 14 min. 59 seg."Então, aqui... Quiel (?) Mercazóti (?) que escreve: “Muito me chocou a uma semana atrás quando ouvi um pastor falando num programa de rádio que o ponto máximo de evolução do Cristianismo seria o perfeito comunismo.” E daí ele pergunta aqui: “O que é de fato comum às duas doutrinas, Cristianismo e comunismo? Cristo era comunista? É preciso ser cristão comunista ou comunista cristão?”
Bom, há algumas semanas atrás eu já expliquei a origem de todos esses movimentos... eu explique num artigo do Diário do Comércio a origem de todos esses movimentos ideológicos modernos. Eles se originam dentro da Igreja, mas se originam dum movimento que era evidentemente herético.
Esses movimentos começam a aparecer... se desenvolvem entre os séc. XIII, XVI. São os chamados movimentos revolucionários messiânicos (eram meia dúzia de monges e teólogos) que [estavam] desesperados com a confusão que havia na época, causado sobretudo pelo surgimento dos Estados nacionais. Cada nação começou a ter ambições imperiais por sua conta. Aquilo quebrou a unidade do império medieval e criou uma bagunça geral. Dentro dessa bagunça surge a corrupção, ateísmo, banditismo, etc.
Então, meia dúzia de monges desesperados com isso decidiu criar uma espécie de Nova Ordem Mundial. Aliás, usaram esse termo! Esse termo foi inventado por João Amos Comenius, que é um educador da época, um cara importante na evolução da pedagogia, mas que também foi um teórico político da mais alta importância e que é inventor da Novus Ordo Seclorum, e que seria, então, a Nova Ordem Mundial cristã. Quer dizer: os caras queriam implantar o Reino de Cristo na Terra à ferro e fogo. Com isso desenvolveram a idéia de um tempo histórico futuro que seria o Reino de Deus na Terra e portanto seria já o efeito do Juízo Final.
Com isto (veja a sutileza do negócio) é que transforma o Juízo Final. O que é o Juízo Final? É o fim dos tempos históricos. Quer dizer: é a absorção da totalidade dos tempos na eternidade. Eternidade é, como definia Boécio, a posse plena e simultânea de todos os seus momentos; é a somatória de todos os momentos transcorridos e transcorríveis; momentos reais e possíveis.
Na Bíblia o Juízo Final se dá precisamente na eternidade. Diante do esgotamento do tempo histórico o tempo é absorvido na eternidade, e os atos e acontecimentos transcorridos no tempo são então rebatidos no plano da eternidade.
Ora, o que esse pessoal revolucionário messiânico fez foi trocar a idéia de eternidade pela idéia de um tempo futuro perfeito. Note bem que, na perspectiva da Bíblia, o sentido da História aparece somente na eternidade. A História é um transcurso de acontecimentos; um transcurso mais ou menos anárquico. Mas visto rebatido no plano da eternidade, esse transcurso histórico adquire uma forma total... (justamente porque acabou). Quando acaba o tempo, tudo o que transcorreu dentro dele deixa de ser um fluxo e adquire uma figura (mais ou menos como uma partitura de música: a música transcorre no tempo, mas na partitura todas as notas estão ali ao mesmo tempo).
Então, nessa passagem do transcurso temporal para a eternidade a História humana total adquire uma figura e pode, portanto, ser julgada.
Esses fulanos [os monges e teólogos] não entenderam bem isso e fizeram do Juízo Final um momento futuro do tempo a ser alcançado mediante a ação humana. Pela nossa ação nós vamos acabar com a bagunça terrestre e instaurar o Reino Final do Cristo que durará eternamente. (...) Qualquer momento futuro, você sabe perfeitamente que quando ele chegar não vai ser mais futuro. Ele vai ser apenas mais um momento do tempo. Então, o que esses camaradas fizeram foi atribuir a um momento do tempo futuro o prestígio e o valor de autoridade da eternidade. O que é um simples erro lógico, mas um erro lógico monstruoso! Nenhum momento futuro pode ser um momento eterno. Qualquer momento futuro, quando ele chegar, vai passar como todos os momentos.
A coisa mais característica de viver dentro do tempo histórico, como nós vivemos, é de que ninguém conhece o movimento da História na sua totalidade. A gente só conhece um pedaço da parte que já transcorreu, e você é capaz, um pouco, de conjeturar o futuro.
Na medida em que fizeram isso eles inverteram radicalmente o sentido do Juízo Final bíblico. [Ao invés] de o Juízo Final ser uma passagem à eternidade, ele é um momento do futuro a ser alcançado mediante a construção de uma sociedade perfeita.
Isso é a maior perversão que pode existir da doutrina cristã. Porque atribui a esses mesmos monges e reformadores o papel de Deus que é o de fazer o Juízo Final; segundo, ele inverte a relação entre tempo e eternidade atribuindo a um momento do tempo o prestígio e o valor da eternidade.
Então isto aqui não é uma doutrina cristã. É uma doutrina anticristã que aparece numa certa época e adquire, por força da ação política, um poder extraordinário. Esta é a origem de todas as ideologias revolucionárias modernas. Ou seja: a característica das ideologias revolucionárias é desejar alcançar esse momento de perfeição da sociedade através da construção de uma sociedade ideal, uma sociedade perfeita... [o momento] seria alcançado dentro do tempo, mas ao mesmo tempo seria o momento eterno; seria o fim os tempos ou o fim da História (como depois disse textualmente o próprio Karl Marx).
Confundir isso com o Cristianismo foi exatamente o que esses monges fizeram (esses malucos do século XIII [ao] XVI). Isto foi a maior perversão que já houve de dentro do Cristianismo. Isso é uma traição interna. Isso é a destruição do Cristianismo.
Não só isso é a destruição do Cristianismo [mas] isso é a destruição da inteligência humana. Porque se você não tem uma visão correta da estrutura do tempo você está fora da realidade. Você está vivendo num tempo hipotético (numa estrutura hipotética) destinada a culminar num momento que magicamente não vai passar mais.
Tem até o famoso poema do Goethe sobre o momento supremo, quer dizer, a aquele momento que é tão bonito que diz “Ah, não passe mais! Fiquei aí! Fique parado no ar!” Mais ou menos no poema do Manuel Bandeira que fala do quarto em que ele morava, no apartamento... diz que iam derrubar o prédio, mas que o quarto dele ia ficar eternamente, intacto [e] suspenso no ar.
Então esse momento perpétuo é mais ou menos [como] o apartamento perpétuo do Manuel Bandeira: é uma impossibilidade pura e simples! Vamos dizer: uma mera figura de linguagem.
Desde essa época, toda essa intelectualidade ativista, tudo o que ela raciocina é dentro dessa estrutura falsa de tempo. Então é por isso que dentro dessa inversão (quando você inverte eternidade e tempo) você inverte tudo o mais! Inclusive você inverte o Bem e o Mal. É impossível quando você está conferindo ao tempo o valor da eternidade então a inversão lógica é total. E não é só inversão lógica: é inversão de percepção. Se o sujeito pode perceber um simples momento do fluxo temporal como se fosse uma eternidade, então todo o esquema de percepção dele está alterado. Daí que esse pessoal chega a confundir o Bem com o Mal.
Esta inversão (...) aparece em tudo. Como, por exemplo, esta semana tinha uma entrevista professor da Unicamp, este cretino chamado João Carlos Quartim de Moraes (que é um sujeito [que] fundou na Unicamp um Núcleo de Estudos Marxistas, transformando a Unicamp numa escolinha do MST). Na época que fundaram isso eu sugeri (escrevi) à Unicamp dizendo “Por que vocês não fundam, também, um núcleo de estudos anti-marxistas?” Seria até mais interessante, porque todos os filósofos que interessam ao século XX são anti-marxistas. Então um núcleo de estudos anti-marxistas forneceria um material de estudo muito mais valioso para a meninada, né? É claro que eles não me responderam.
Mas esse seu João Carlos Quartim de Moraes está dizendo que a esquerda atual não pode tentar obter o apoio, a simpatia dos militares atuais à custa de esquecer, diz ele, os “nossos mortos”.
Ora, falando em “nossos mortos” (é muito bonito esse negócio porque), esse João Carlos era um dos membros daquele comitê de justiça autonomeado que condenou à morte um capitão americano que morava no Brasil, chamado Capitão Chandler, e o assassinaram na porta de casa na frente do filho e da mulher. Então este era um comitê de três f...d...p... que condenou à morte um sujeito que não tinha absolutamente nada a ver com a disputa política brasileira. Eles inventaram toda uma história, toda uma mitologia de que o sujeito era um agente perigosíssimo que estava aí ensinando técnicas de tortura (o que é um absurdo total!). O sujeito estava apenas fazendo um estágio, estudando no Brasil; quer dizer: um sujeito que confiou na hospitalidade brasileira e foi aí estudar, e de repente é crivado de bala na porta de casa. Isso é obra desse seu Quartim de Moraes.
Esse seu Quartim de Moraes é um assassino! E ser um assassino, ser um assassino político a favor do lado politicamente correto, vamos dizer, é a mais alta glória curricular para um universitário brasileiro. Por isso mesmo ele tem sua importância na Unicamp.
Então um assassino que fica chorando dos “nossos mortos” e trata o morto do outro lado como se fosse um detrito numa lixeira [é] evidentemente um sujeito que tem uma consciência moral completamente torta, distorcida, doente. É um sociopata, obviamente! E justamente por ser um sociopata adquire uma importância de um prestígio universitário fora do comum.
Então é um “nego” que chora os “nossos mortos”. Os “seus mortos” que se danem! Os “seus mortos” são lixo!
Veja, a condição humana, salvo engano, é uma condição biológica da qual todos nós participamos. Nenhum ser humano pode conferir a condição humana ao outro. Mas na perspectiva desse seu João Carlos Quartim de Moraes a condição humana depende da sua posição política. Conforme sua posição política você é gente, então você merece ser pranteado e homenageado porque morreu. Agora, se você está do lado errado, isso não existe. Então só existe os “nossos mortos”. Os “seus mortos” são lixo.
Isso é uma distorção monstruosa da consciência moral. Essa distorção é comum a uma infinidade de intelectuais ativistas militantes. São todos eles assim! Todos eles choram porque morreram, desapareceram 376 terroristas brasileiros... eles choram pra caramba. Agora, se Fidel Castro mata 500 mil pessoas no continente inteiro, aí isso não é para chorar, isso não é nem para ligar. Isso é um detalhe (de menos ?). É um detalhe na História, vamos dizer, como os judeus que morreram na Segunda Guerra eram um detalhe para o tal do sr. Le Pen (que é, evidentemente, também um cara com uma perspectiva revolucionária). Quer dizer, esse movimento fascista europeu é também um movimento revolucionário utópico que visa criar uma sociedade que era perfeita no entender deles.
Então a perda da estrutura real do tempo é a perda da noção de realidade e a distorção completa da percepção humana. Então você dizer que isso é Cristianismo... bom, é Cristianismo no sentido que uma nota falsa de cem dólares é uma nota de cem dólares. Não deixa de dizer, estar escrito “cem dólares”... ela imita. Só que ela não vale cem dólares. Não vale nada.
Então esse pretenso Cristianismo/socialismo... quem quer que fale isso, socialismo cristão, você pode ter certeza, ou é um idiota completo, ou é um sociopata como esse seu Quartim de Moraes."Fim: 28 min. 57 seg.Marcadores: Cristianismo, eternidade, História, mentalidade revolucionária, Olavo de Carvalho, tempo