Há uma frase que diz que a eternidade é a posse simultânea de todos os momentos. O momento, por definição, não é um fluxo, mas um ponto infinitamente pequeno no transcorrer do tempo. Há infinitos momentos num espaço de tempo, seja ela qual for.
A eternidade conflui todos os momentos, portanto, todo o tempo numa condição perene. A linha histórica esmaga-se num único ponto, tornando toda a História simultaneamente presente. Na condição espaço-temporal, é como se o tempo estivesse congelado num "fim da História" onde o fim nada mais fosse do que o momento em eterna permanência. Chegando com o dia do Juízo Final, o fim da História só é realizável, portanto, na eternidade. Ele não pode ser feito aqui e agora, mas apenas na transposição do tempo no para-além. O imanente só se torna pleno e absoluto no transcendente.
Minha experiência em oração nas reuniões do Grupo São José tornaram a perspectiva da eternidade o palco do Juízo Final. Não cabe aqui interpretar ou fazer elocubrações sobre o Apocalipse bíblico e sua visão popular do fim do mundo (há uma mania geral de tratar o Apocalipse como um fim intramundano, onde a realidade concreta é destruída para abrir espaço a uma nova realidade concreta), mas sim de relatar a experiência de relação com a transcendência.
Porém, qual é a importância da abertura para a eternidade, seja através da contemplação, da oração ou de qualquer forma de mística?
A identidade humana é formada através de nossa História. Somos aquilo que fomos desde o nascimento até o presente momento, portanto, tudo o que fomos através de um acontecer histórico. Ao transpor a História na eternidade, a linha de tempo conflui num ponto único, tornando simultânea a posse de todo o ser. A nossa História pessoal torna-se um momento perene, e o ocultamento de todos os nosso erros e medos torna-se impossível. Aí podemos enxergar "de frente" o que realmente somos, sem qualquer véu que oculte nossa identidade. Em outras palavras:
na abertura para a eternidade, todo o nosso eu esmaga-se num momento único, perene e autoconsciente. A eternidade obriga a nos encararmos em plenitude, tornando inevitável o encontro com tudo o que fizemos ou deixamos de fazer. Estamos presentes no tribunal cujo Julgamento permite a contemplação absoluta de nossas atitudes e o arrependimento sincero de nossos erros. Encotramo-nos nus e crus perante a transcendência, tornando nossa vida uma Verdade Absoluta totalmente plena e consciente da qual não podemos escapar.
Podemos compreender o encontro conosco através da idéia de transitoriedade e sentido da vida analisada por Viktor Frankl. Na obra
Em Busca de Sentido, Frankl afirma que a vida é feita de escolhas, e que cada escolha apresenta-se como uma potencialidade que pode ser ou não levada em ato. Temos aquilo que fazemos e deixamos de fazer. Ao questionar sobre o sentido da vida, Viktor Frankl afirma que a pessoa
"...não deveria perguntar qual é o sentido da vida, mas antes deve reconhecer que é ela
que está sendo indagada. Em suma, cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente poderá responder à vida respondendo
por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo responsável. Assim, a logoterapia [escola fundada por Frankl]
vê na responsabilidade a essência propriamente dita da existência humana."A responsabilidade humana pelos próprios atos segundo os caminhos que a vida lhe indaga é o que forma nossa identidade. Nisso está o caminho escolhido pelo indivíduo na formação de sua História. Sobre a transitoriedade da vida, Frankl afirma:
"Nunca me canso de dizer que os únicos aspectos realmente transitórios da vida são as potencialidades; porém no momento em que são realizadas, elas se transformam em realidades; são resgatadas e entregues ao passado, no qual ficam a salvo e resguardadas da transitoriedade. Isto porque no passado nada está irremediavelmente perdido, mas está tudo irrevogalmente guardado.""Nada pode ser desfeito, nada pode ser eliminado; eu diria que ter sido
é a mais segura forma de ser."Novamente, somos o que somos pelo o que fizemos baseados em nossas escolhas. O encontro com o eu é a iluminação autoconsciente do que está "irrevogavelmente guardado", e tudo será retirado da gaveta ao confluirmos nossa História no encontro com a eternidade.
A condição humana torna necessária a análise de nossa História e, portanto, do nosso eu. Se autoconsciência sobre o que somos ou deixamos de ser não vier na temporalidade da vida terrena, virá inevitavelmente na eternidade. É estritamente necessário encarar os próprios erros e acertos numa vida que questiona unicamente a nós, caso contrário teremos de encarar nossas responsabilidades mais tarde.
A transitoriedade da vida se concluirá na imersão do eterno, e aquilo que está irrevogavelmente guardado não poderá mais ser colocado às escondidas de nossa própria consciência. A eternidade
NÃO é para covardes.
Nossa responsabilidade para conosco é inevitável e está unicamente em nossas mãos. Por isso compreendo a experiência mística que tenho na oração em grupo: o escancaramento pleno e consciente do meu eu torna simultânea a beleza da Verdade e o arrependimento do pecado. Ver a si em plenitude é ver
tudo o que se fez ou deixou de fazer; é ser a "forma mais segura de ser" através da conscientização do que está "irrevogavelmente guardado".
A abertura para com a eternidade exige a coragem de ver os próprios erros, caso contrário o contato com o para-além torna-se impossível! Não há como contemplar a face divina sem contemplar o seu eu em plenitue. Aceito o desafio, entramos na êxtase da Verdade absoluta e no mais puro arrependimento, tornando o rolar das lágrimas inevitável. É só através da eternidade que compreendemos a infinitude do amor divido: podemos maravilharmo-nos com toda a Verdade ao mesmo tempo que temos dada a chance de corrigir o que somos para sermos o que devemos ser.
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